Gênio. Visionário. Vanguardista. Inovador. Todos esses adjetivos edificantes são usados, de forma justa, para descrever Steve Jobs. Mas o lendário co-fundador da Apple também ficou marcado por uma faceta não muito elogiosa de sua personalidade: a suposta falta de habilidades interpessoais.

Reza a lenda que ele às vezes agia como carrasco frente aos subordinados, chegando ao ponto de demitir pessoas no elevador da empresa e de submeter colaboradores a jornadas de trabalho abusivas. Claro que esses atos não constam em nenhum manual de boas práticas de RH.

O que muitos ignoram é que em meio a toda essa aparente falta de habilidade para lidar com pessoas, havia algumas características importantes em sua persona que agregariam bastante a qualquer gestor de Recursos Humanos.

Afinal, Steve Jobs foi capaz de guiar os colaboradores da Apple em uma trilha tão pavimentada de êxito que a empresa se tornou em 2012 a companhia mais valiosa do mundo, com suas ações atingindo a incrível marca de U$ 623 bilhões (superior ao antigo recorde estabelecido pela Microsoft em 1999). Isso fala muito alto.

E quem não gostaria de aprender alguns ensinamentos do líder de uma das empresas mais cultuadas e bem-sucedidas da história do Vale do Silício?

Conheça algumas lições que Steve Jobs poderia ensinar ao RH da sua empresa:

 

1) Valorizar os talentos

Jobs era um perfeccionista inveterado.

Reza a lenda que ele pedia à secretária para limpar sua agenda na semana que precedia suas famosas apresentações para que ele pudesse montar o discurso e treiná-lo com dedicação total.

Mas esse traço obsessivo trazia um bônus interessante no que diz respeito à gestão de pessoas: quando se deparava com alguém dotado de grandes habilidades para executar o trabalho devido na Apple, Jobs não tentava minar ou desprestigiar essa pessoa para se sentir mais competente (como fazem muitos chefes despreparados).

Era comum que ele desafiasse as convicções de um colaborador – mas sempre para testar se ele estava certo do que estava fazendo, e não para se automoprover. Quem passasse pelo teste era valorizado e, constantemente, acaba melhorando o que já estava indo bem.

Exemplo disso foi o prêmio anual criado a partir de 1981 para quem melhor desafiasse Jobs na equipe de desenvolvimento do Macintosh. Steve sabia e aprovava a premiação, pois entendia o valor do “conflito positivo”.

2) Recrutar os melhores sem preocupação excessiva com burocracia

Processos seletivos em grandes empresas tendem a se basear na burocracia, negligenciando candidatos com enorme potencial só que com faculdades e empregos modestos na bagagem em favor de candidatos que apresentam um currículo de peso mas que, em diversos casos, não são de fato as melhores opções para as vagas.

A experiente executiva de Recursos Humanos Regina Hartley aborda o assunto em uma palestra no TED (você pode conferi-la clicando aqui).

Steve Jobs, por outro lado, gostava do primeiro tipo de candidato. Ele não fazia muita cerimônia em entrevistas e lançava mão de métodos inortodoxos para avaliar candidatos.

Quando estava recrutando profissionais para integrar a equipe de desenvolvimento do Macintosh, seu critério principal era a paixão que o candidato tinha pelo produto. Um dos “testes” que ele aplicava no processo seletivo era entrar com o candidato em uma sala onde havia um protótipo do computador coberto por um véu, descobri-lo em um gesto teatral e verificar a reação que a pessoa tinha ao observar o equipamento pela primeira vez. Quem se mostrasse legitimamente entusiasmado, em geral, era contratado.

Hoje em dia, já é mais comum testemunhar processos seletivos nos quais os recrutadores fogem um pouco do clichês e pedem para o candidato responder a perguntas do tipo: “suponha nesta sala entrasse um pinguim vestindo um sombreiro. O que ele falaria para nós?”.

Esse é um tipo de pergunta que Steve Jobs faria.

3) Extrair o melhor de cada profissional

Se Jobs não conseguisse estimular os profissionais da Apple a se superar, a empresa não teria se transformado no colosso que virou. “Meu papel não é ser bonzinho com as pessoas. Meu papel é torná-las melhores” dizia ele.

Bud Tribble, um projetista de software que foi gerente da equipe que desenvolveu o Macintosh no começo dos anos 1980, dizia que Jobs tinha um campo de distorção da realidade: ele conseguia convencer os colaboradores a realizar projetos em prazos muito mais curtos do que eles pŕóprios pensavam ser possível – mas, uma vez que Steve estivesse ausente, alguns cronogramas se tornavam irrealistas. É um caso típico em que a presença do líder fortalece o grupo.

Uma ocasião, Jobs reclamou para o engenheiro Larry Kenyon que o tempo de execução do sistema operacional do Macintosh estava lento, ao que Kenyon retrucou que não havia como melhorar. Steve então perguntou: “se a vida de alguém dependesse de você reduzir esse tempo de execução, você arrumaria uma solução?”, e então explicou que se 5 milhões de pessoas usassem o Macintosh e se o tempo de execução fosse 10 segundos mais rápido, isso representaria uma economia de cerca de 300 milhões de segundo por ano. Alguma semanas depois, o sistema estava 28 segundos mais rápido.

Exigir que gestores “distorçam a realidade” pode ser pedir demais, mas todos podem aprender a motivar funcionários e extrair o melhor deles dentro de um projeto.

Não é correto (e nem eficaz) fazer ameaças ou chantagens, mas o gestor deve ter consciência de que um bom líder estimula o colaborador a sair ligeiramente de sua zona de conforto – sem cometer o erro de forçá-lo a fugir demais dela – para alcançar uma performance maior.

Assim, você consegue extrair leite de pedra.

4) Criar um propósito inspirador

Dentre as muitas frases famosas de Jobs, uma das mais marcantes é a que ele proferiu em seu retorno à Apple, em 1997: “We’re here to put a dent in the universe” (“Estamos aqui para colocar uma marca no universo”). E eles conseguiram.

Não que todo funcionário de qualquer empresa precise ter a ambição de mudar o mundo com seu trabalho. Mas é fundamental, tanto para o desempenho como para a satisfação do colaborador, que ele tenha um senso de propósito em relação ao que faz, e de preferência algum objetivo que extrapole o financeiro.

Quem não enxerga o motivo por fazer o que faz no escritório nove horas por dia, cinco vezes por semana, dificilmente vai atingir uma alta performance – e muito menos ter uma alta motivação.

Há mais frases que indicam o quão focado na motivação Jobs era: “Ser o homem mais rico do cemitério não importa para mim. Deitar na cama à noite dizendo que fizemos algo maravilhoso, isso que importa pra mim”.

Essa era a mentalidade transmitida por ele a quem trabalhava na Apple. Essa é a mentalidade que um líder deve transmitir aos seus subornidados.

“Seu trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única forma de se sentir plenamente satisfeito é fazendo um bom trabalho. E o único jeito de fazer um bom trabalho é amando o que faz.” Outra frase que define propósito e que poderia constar no cabeçalho de qualquer apresentação de PowerPoint exibida aos novos funcionários de uma empresa.

Enfim, mesmo com sua “falta de tato” para lidar com pessoas, Steve Jobs ainda teria muito a ensinar sobre comportamento humano. Porque, no final das contas, podemos tirar lições preciosas dos professores mais inusitados.

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