Como lidar com o etarismo no mercado de trabalho?

Marcelo Furtado
Cultura Organizacional
  12 min. de leitura

O envelhecimento é um processo natural e inerente aos seres humanos. Apesar disso, muitos discriminam as pessoas de mais idade, como se elas fossem incapazes ou inferiores. Essa atitude, chamada etarismo, é comum no mercado de trabalho, gerando preconceito e prejudicando a diversidade na organização. 

Como combater o etarismo nas empresas?

Neste artigo, responderemos a essa pergunta. Além disso, explicaremos melhor o que é etarismo no mercado de trabalho. Apontaremos também os tipos e as consequências dessa prática negativa na sociedade. Acompanhe os próximos tópicos!

O que é etarismo?

Em poucas palavras, o etarismo – também conhecido como ageismo-  é qualquer forma de preconceito, discriminação ou estereótipo que surge devido à idade de uma pessoa. As atitudes preconceituosas podem acontecer de maneira individual ou por meio de políticas e práticas organizacionais.

De acordo com um estudo realizado pela American Psychological Association (APA), a discriminação pela idade é uma questão tão séria que precisa ser combatida na mesma intensidade que os outros tipos de preconceito – gênero, raça ou condição social.

Essa pesquisa revela ainda que os estereótipos negativos do envelhecimento geram tratamentos injustos e até cruéis com os adultos mais velhos. Esse cenário se torna mais preocupante quando olhamos para o futuro.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial envelhece rapidamente. A projeção é que o número de pessoas com mais de 60 anos atinja a marca de 1,4 bilhão em 2030.

Para que o etarismo não cresça no mesmo ritmo, é importante que a sociedade  e o mundo corporativo invistam em ações de conscientização. Em especial, nas que fortalecem o combate contra esse tipo de preconceito.

Etarismo feminino

Quando falamos de preconceito em relação à idade, as mulheres são as que mais sofrem. A razão é que vivemos em uma sociedade que, em muitas ocasiões, exalta a aparência feminina em detrimento das habilidades e competências das mulheres. 

Em muitos âmbitos, a mulher com mais idade é invalidada e considerada incapaz, além de ser negado o envelhecimento, com inúmeros produtos de beleza e procedimentos estéticos para “atrasar”o inevitável. 

Podemos observar a partir do universo do trabalho. É comum uma profissional experiente não ser mais considerada “bela” perante os padrões sociais, assim como ativa psicologicamente e intelectualmente, por questão de idade.

Os números mostram um panorama preocupante. A pesquisa Global Learner Survey, realizada pela Pearson em parceria com a Morning Consult, revela que 74% das mulheres entrevistadas sofreram discriminação na hora de buscar novas oportunidades profissionais. Na pesquisa, 65% afirmaram que o etarismo no trabalho é um tema que deve ser discutido e combatido.

Além das desvantagens que já sofrem em relação aos homens no ambiente corporativo, as mulheres com idade acima de 40 anos sentem ainda o peso da desigualdade etária. Ainda segundo o estudo, 87% das profissionais possuem menos oportunidades – como assumir postos de liderança  nas empresas.

Diante desses dados, podemos dizer que o etarismo feminino é ainda maior do que o masculino. É essencial que as empresas ampliem  os espaços de discussão sobre o tema e implemente políticas organizacionais que incentivem o respeito e oportunidades para pessoas acima de 40 anos.  

Etarismo no mercado de trabalho

Para além da realidade da mulher, o etarismo também ocorre de maneira geral no mercado de trabalho. Uma pesquisa realizada no Brasil, pela consultoria Hype50 revela que  39% dos profissionais brasileiros acima de 55 anos se sentem excluídos ou descartados do mercado de trabalho. Mas quais são as atitudes que escancaram o ageismo nas empresas? Vejamos algumas delas.

Comentários e insultos relacionados a idade

“Não adianta ensinar, a idade não deixa aprender mais nada”. “Ele está muito velho para trabalhar. Por que não se aposenta logo?”. “Ela não serve para essa vaga. Precisamos de sangue novo”.

Essas são apenas alguns dos comentários e insultos que muitos profissionais de mais idade são obrigados a escutar todos os dias nas empresas. Além de preconceituosas, essas expressões não representam a verdade a respeito da maturidade.

Falta de contratação de pessoas mais velhas

Em muitos processos seletivos, o etarismo não é anunciado, mas ocultado. Como assim? Nos anúncios das vagas, não há nada que indique a rejeição de profissionais acima dos 40 ou 50 anos.

Porém, os recrutadores dispensam os currículos enviados pelos candidatos de mais idade, sem nem ao menos entrevistá-los. Quando são chamados para as entrevistas,  normalmente perdem a vaga para um profissional jovem que tem as mesmas qualificações, competências e habilidades. 

Esse tipo de recrutamento e seleção não é, nem de longe, diversa e inclusiva. 

A inclusão nada mais é do que uma empresa que dá oportunidade para todas as pessoas, desde a idade, gênero, etnia, religião, orientação sexual e condição física. A imagem abaixo demonstra com mais clareza. 

Inexistência de promoções para esse grupo 

Existem empresas que deixam de promover um profissional quando atinge determinada idade ou não oferecem um plano de carreira para os que foram contratados depois dos 40 ou 50 anos. 

Essa prática é como “congelar” o progresso do colaborador por achar que não tem mais idade para novos desafios, e nem capacidade de lidar com demandas.Nesse caso, o papel do RH e da empresa é criar um plano de desenvolvimento para essas pessoas, que siga a realidade do grupo.

Porém, a grande realidade é que algumas organizações contratam profissionais maduros apenas para melhorar a employer branding (marca empregadora) — por isso não os promovem. 

A finalidade é só mostrar para o mundo corporativo que levantam a bandeira da diversidade e inclusão. Mas, na verdade, na prática isso não acontece.

Corte de colaboradores acima de  40 anos

Uma prática triste que também acontece nas empresas é o desligamento de colaboradores que completam 40 anos ou mais. Um dos pretextos usados para esse tipo de demissão é a renovação do time interno. 

Uma vez que, no conceito de muitas empresas, a inovação, tecnologia e novas ideias vem somente das mentes dos mais jovens. Isso representa um engano. Na prática, as instituições que demitem os profissionais mais experientes estão jogando fora algo valioso: o conhecimento adquirido acumulado por anos de prática.

Felizmente, há organizações que não pautam por essas perspectivas. 

De acordo com um estudo recente da Deloitte, ainda feita em 2021 e com 215 empresas brasileiras , mostra que 37% das empresas entrevistadas criaram um grupo de afinidade para profissionais maiores de 50 anos, 20% disseram que as práticas contra o etarismo estão avançando, e 34% revelaram que pretendem adotá-la nos próximos anos.

Consequências do etarismo na sociedade

O estudo Global campaign to combat ageism, publicado pela Toolkit, alerta que o etarismo tem sérias consequências a longo prazo, para a saúde, bem-estar e os direitos humanos. Além disso, o preconceito de idade custa bilhões de dólares para a sociedade.

Quem sofre a discriminação perde em saúde física e mental. Isolamento, solidão, insegurança financeira, redução da qualidade de vida e até mesmo morte prematura são possíveis consequências do etarismo. 

Nas empresas, o impacto  é na produtividade e satisfação do profissional.  Podem surgir doenças emocionais, como a depressão, burnout ou ansiedade generalizada. 

Para combater o etarismo em todas as esferas da sociedade, o Governo Federal, aprovou em 2003 lei n0 10.741, conhecida como o estatuto do idoso. Essa legislação lançou a base para que as pessoas mais maduras tenham os seus direitos respeitados. 

No capítulo 6, o estatuto foca no ambiente corporativo. Entre as garantias, está o exercício de atividade profissional, respeitando as condições físicas, psíquicas e intelectuais. Além disso, proíbe a discriminação e a fixação de limite máximo de idade nas empresas — salvo por exigência do cargo.

O respeito por essas regras nas empresas ajuda a combater o preconceito por idade tanto agora como no futuro. Como dito, a população mundial está envelhecendo. No Brasil, de acordo com o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em 2040, 56% da força de trabalho será composta por pessoas com mais de 45 anos.

Lembrando que os jovens de hoje são os idosos de amanhã, a luta contra a discriminação no mundo corporativo é essencial para o sucesso futuro desses profissionais. Do contrário, teremos uma geração de trabalhadores  com saúde física e mental deterioradas, baixa autoestima e muito vulneráveis.

Inclusão de profissionais acima dos 40 anos

Mas, afinal, como combater o etarismo? A resposta começa com a adoção de práticas voltadas para a inclusão de profissionais acima dos 40 anos. A seguir, listamos vários benefícios que a  empresa sentirá quando investir  nesse tipo de estratégia.

Maior desempenho e cooperatividade

A diversidade etária no ambiente de trabalho melhora o desempenho e a cooperatividade na organização. Uma das razões é que a experiência dos profissionais mais maduros ajuda na geração de boas ideias para os projetos internos.

Por outro lado, o vigor, a inovação e a facilidade em lidar com o digital (característica marcante das gerações mais jovens, como a Y e X), impulsionam os resultados. Essa mescla etária auxilia também na melhora das tomadas de decisões e solução de problemas complexos.

Humanização dos planos de carreira

A humanização do ambiente de trabalho é um dos objetivos de muitas organizações. Uma atmosfera interna humanizada eleva a satisfação e a produtividade dos colaboradores. Quando se fala de diversidade e inclusão, a humanização deve ser também parte dos planos de carreira.

Como fazer isso? Entre as estratégias, podemos destacar:

  • Construção de trilhas de carreira para profissionais com mais de 40 anos;
  • Criação de cargos, funções e promoções para os colaboradores mais maduros;
  • Elaboração de políticas que fomentem a diversidade etária nos processos seletivos internos.

Quando essas e outras ações são implementadas, a empresa perceberá que, devido ao grau de experiência dos colaboradores com maior vivência, a qualidade das demandas aumentará. 

Menos rotatividade de funcionários

Se não existe etarismo no trabalho interno, a organização terá menores taxas de rotatividade (turnover) de colaboradores. Esse aspecto positivo acontece porque os profissionais maduros tendem a permanecer mais tempo na empresa. 

Além disso, essa estratégia reduz os custos com verbas rescisórias, recontratações e treinamentos.

Impulsiona inovação

Um time formado por profissionais de várias idades reúne diversas habilidades, experiências, perspectivas e perfis comportamentais. O resultado é uma rica fonte de inovação. 

Logo, a empresa desenvolverá projetos ousados e diferenciados no mercado em que atua. Sendo assim, o negócio conquistará visibilidade e competitividade.

Melhoria na reputação da empresa

Empresas que estimulam a cultura da inclusão são vistas como modernas, acolhedoras e inovadores. Por isso, a diversidade etária melhora a employer branding (marca empregadora) da organização. 

Essas características atraem talentos profissionais diversos para o processo de recrutamento e seleção e, consequentemente, para o time interno.

Ajuda a combater o preconceito

As novas atitudes corporativas tendem a ser cada vez mais humanizadas, pois o comportamento da sociedade – tanto trabalhadores quanto consumidores – é bem diferente de 30, 40 anos atrás.

O preconceito com qualquer grupo específico não é bem visto no mercado competitivo, e precisa ser combatido com intensidade. Uma das melhores armas para esse combate é dar oportunidades iguais para profissionais de diversas idades. 

Dessa forma, a empresa se posiciona como uma aliada de todos os que lutam contra qualquer tipo de discriminação.

Como combater o etarismo?

Eliminar o preconceito etário no mercado de trabalho não é algo que se consegue muito rapidamente. Então, como combater o etarismo? Com a adoção de práticas estratégicas, é possível derrubar, mesmo que lentamente, esse tipo de preconceito. Vejamos algumas dessas ações.

Criar programas de inclusão

É fundamental a criação de um programa interno de inclusão. Entre as práticas que devem ser incluídas neste programa, podemos destacar:

  • Descrição de cargos e funções que não discriminem os profissionais maduros;
  • Estímulo ao uso da linguagem inclusiva e repúdio a depreciativa;
  • Premiações aos colaboradores com mais de 40 anos que tenham um bom desempenho;
  • Eventos e palestras que tratem sobre o etarismo no trabalho.
  • Criação de espaços para valorização desses profissionais, nos quais eles possam relatar suas experiências e sentimentos. 

Dê condições adequadas de trabalho

A empresa precisa cuidar do bem-estar e da qualidade de vida dos colaboradores maduros. Isso envolve a concessão de benefícios específicos, como: consultas médicas, descontos em academias e terapias alternativas. Além disso, é importante também flexibilizar a carga horária e construir ambientes acessíveis.

Enfim, quando a organização se torna um ambiente de respeito entre os colaboradores, o clima interno torna-se agradável e fértil para criação de boas oportunidades. Afinal, os colaboradores sentem no dia a dia o melhor de dois universos: a juventude e a maturidade.

Agora que você já entendeu o que é o etarismo e como combatê-lo no ambiente de trabalho, é importante atentar-se para que os processos seletivos da empresa sejam inclusivos. Para te ajudar nesse caminho a Convenia preparou um material muito especial:  Baixe nosso Playbook sobre Recrutamento e seleção diverso e inclusivo. 

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